Aprendi a transformar a espera dos amigos, daqueles que sempre se atrasam mesmo, em bons momentos de observação da vida alheia. Tenho me tornado uma verdadeira voyeur do cotidiano. Ontem no CEU uma garotinha Clara, pais professores, intelectuais, ou algo do tipo e uma “babá”, menina-rica-loira que na verdade mais parecia uma filha de amigos do casal intelectual que tava querendo trabalhar pra fazer um pezinho de meia. O sotaque denunciava a origem sulista. A menina não precisava de babá. Já era grande e pelo meu olho clínico tinha exatos oito anos. Sou expert em descobrir idade de crianças. É só observar os sinais. Mesmo aquelas que são grandes demais, ou pequenas demais pra idade é possível adivinhar. E a Clara, essa garota ai que tava no CEU e que eu só sei o nome porque ouvi uma centena de vezes nos dez minutos de espera, tinha essa idade porque ainda usava franjinha, os dentes permanentes ainda estavam pela metade, fazia brincadeiras na piscina de ser atirada longe (mas esse tipo de brincadeira ela já tava parando de gostar) e se divertia testando sua própria capacidade de prender a respiração por longo tempo debaixo d’água, gostava de competições e tinha nos pais seus verdadeiros ídolos (ainda).
Mas o melhor foi a Clara dando um show de filosofia na menina-rica-loira-babá. A última propôs uma brincadeira de pega-pega na piscina. A Clara topou, mas após dois minutos e a percepção “clara” de que estava em desvantagem, deu uma tossida, não foi bem um fingimento de afogamento, longe disso, apenas um pequeno engasgo, mas tão logo a menina-rica-loira-babá veio ao seu encontro para ajudá-la, sem titubear Clara disse: “te peguei!” E a menina-rica-loira-babá: “espertinha!” e a Clara, meu deus, no auge de seus oito anos: “se não pode vencê-los, junte-se a eles!” A menina-rica-loira-babá num entendeu nada: “Anh?!” e a explicação didática veio em seguida pela própria Clarinha: “Veja bem se vc não consegue ir até a coisa você dá um jeito dela vir até você.”
Eu adoro a filosofia infantil.
Eu quis ir conversar com a menina, mas o olhar dos pais me constrangeu. Em tempos de pedofilia é bom nos resguardar de qualquer aproximação gratuita.
Por isso tenho meus próprios filhos. Pra transformá-los em seres pensantes. Em filósofos natos. Que saudade da minha filha e de suas reflexões. Minha pequena onde quer que esteja...
4 comentários:
Eu lembrei da Flora nesse comentário da pequena também.
Num lembro qual comentário ouvi da Flora num lanche lá na casa da Sara, mas me lembrou. Era tipo levantando uma questãozinha meio boba, que devia envolver o miolo de pão ou coisa assim, do momento, mas sem resposta fácil; se é que tinha uma ou se é que era uma pergunta... e na verdade num era nada boba (que memória eu tenho pra sensação das coisas e nenhuma pros fatos. Mas eu tava de ressaca esse dia tsss)
É assim mesmo, se a gente para pra observar de perto essa geração, vai se espantar. Mais ou menos na época em que a Flora nascia, até um pouco antes, o Bono Vox falou "Crianças, filmem seus pais. Pais, tenham cuidado." Ahhh... eu queria era uma hand-cam que nem a dele pra filmar umas coisas assim.
Queria contar uma dessas, da minha sobrinha comigo (eu era babá dela na parte da tarde, quando ela tinha uns 2,3 anos...). Mas... deixa, ainda vai ter tópico mais específico... aliás num vai não, vou contar.
Cheguei em casa depois da primeira vez que senti muito medo de perder a pessoa que seria minha namorada e/ou esposa por mais de dez anos. Enxuguei bem os olhos pra não ter que comentar nada com quem estivesse na sala e passar direto pro quarto. Ninguém notou, mas minha sobrinha de 2 ou 3 foi devagarzinho até o meu quarto e bateu na porta. Abri e ela veio, carinhosa, até minha cama e perguntou, assim, na lata, do nada: "A _______ (minha namorada, mas nem conseguia pronunciar o nome direito) te bateu?"
Eu sorri. "Não bateu não, Cecela. Tá tudo bem."
É assim mesmo. Se observar... a criança vê no adulto o que ele não supõe, e o adulto vê, na criança, o que ela nunca fez questão de esconder. Tá lá pra quem quiser ver.
Sim, às vezes me dá medo de imaginar essa percepção precoce dos pequeninos elevada ao cubo. Precisamos é nos tornar adultos ao cubo tb. Será que eu parei no meio do caminho?
Glup (engolindo a seco)...Pelo menos meus constantes atrasos fazem vc pensar ... e escrever! ehehehe
Ahnnn... tsc, tsc... acho que falei uma coisinha que não faz muito sentido: ter uma hand-cam (e tb que saco esse negócio de hand-cam; é câmera-de-mão! Sem hífen?) não funcionaria.
Não dá pra almoçar segurando uma, muito menos ligada 24 hs por dia; imagina num clube, ficar filmando o filho dos outros nadando hehehe.
Instalar uma no óculos. Sim, foi isso que eu quis dizer. :o) E vou fazer isso um dia se o dinheiro sobrar a esse ponto. hohoho
Escrevam leitores do blog da Sara, se não, eu mesmo vou dialogando comigo. E... eu sou um cara chato pra ficar dialogando. Ou não? Sou. Não, não sou, esse post aqui é uma prova? Peraí... quem disse que blog é pra "dialogar"? Uai... ninguém disse, mas se a comunicação é o motivo dos blogs, então porque não dialogar também? Peraí que me veio um desenho do Pernalonga na cabeça... preciso sair. ("Que puxa"... já comecei a ficar parecido comigo de novo.)
É "nos óculos" e não "no óculos"; certo?
Postar um comentário