sábado, 13 de setembro de 2008

efeito adesivo

Outro dia, no metro (sim, em bh tem metro, tá certo que é na superficie e é lerdo, mas a gente chama de metro mesmo assim), uma garotinha de uns três anos fazia birra, muita birra. Queria por que queria uma caneta, dessas bic, que seu pai a proibira de pegar por que a mesma queria insistentemente coloca-la na boca. O pai, que era super bacana, paciente, calmo, tinha vários argumentos legítimos pra negar o objeto à filha. Que aliás, também era uma graça, inteligente, e seu único problema ali naquela situação era o fato de ter três anos. Chorou o que pode, gritou um pouco e ficou por alguns minutos num nhemnhem sem fim. Eu observei muito. Encarei a menina mesmo. Sem mexer um músculo sequer. Fiquei lá olhando e pensando o que é que poderia reverter aquela situação. Lembrei que meu pai, que adora crianças e não suporta birras, sempre dizia, “menino fazendo birra? tem que parar de falar no assunto, mudar de objeto, qualquer coisa que faça com que a criança se atente para outra coisa”. Ao meu ver, não é uma lição para a vida, não deve ser aplicada em adultos, muito menos em relacionamentos amorosos. Definitivamente, temos que fazer o luto das coisas que perdemos, entender os porquês das “desgraças” da vida, da proibição de canetas e não simplesmente “Mudar de assunto”. Mas com crianças de três anos funciona bem. Continuei ali pensando o que teria na minha pasta-arquivo de trabalho, ou no meu estojo que tudo contém que poderia agradar aquela criança mais do que uma caneta. Eureca! Me lembrei que eu tinha em uma das divisórias da minha pasta uma sessão chamada “material” (sim, eu sou ultra organizada, neurótica mesmo) e que nela tinha uma cartela de etiquetas, dessas caras próprias para impressoras que vêm naqueles envelopes amarelo gema. Nem eram adesivos coloridos, desses com personagens, nada disso. Mas eu sabia que aquele “efeito adesivo” fazia sucesso com crianças. Me preparei toda. Peguei umas três etiquetas, descolei-as da folha grande, deixando cada uma em um dedo, me levantei da minha cadeira, arriscando perder o assento, e fui direto naquela garotinha. Fitei ela nos olhos e disse com ar misterioso “eu tenho uma coisa muito mais legal do que uma caneta”. Ela arregalou os olhos. Eu colei um adesivo em sua perna, um no braço e o outro dei na mão. Ela ficou muda. Muda alegre. O pai ganhou bigodes brancos. O metrô perdeu o choro. E eu fui trabalhar me sentindo Amelie Poulain.

6 comentários:

Sumaya Mattar disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maritaca disse...

Essa eu já sabia...hahaha!!
Vc tem mesmo esse efeito, sabia?
Eu mesma me adesivei! e gosto disso.
É um querer bem por nada e por tudo, de graça mesmo. E é bom, e é interessante sempre.

Eu não tenho, mas se já tivesse esse tal agrado vc nem iria saber...

bjs!!!

Maritaca disse...

o endereço do blog que te fei é http://ritaapoena.zip.net/
bjs!

Marta Denise disse...

Sara,

Adorei.
Tão sensível. Me inspirou. Acho que vou me aventurar.
Um bj,
Marta Denise

MOVA - Brasil Desenvolvimento e Cidadania disse...

Sara,
primeiro, adoro as pessoas que sabem e gostam de utilizar das "mudernas tecnologias midiáticas e digitais". segundo, gosto muito destas crônicas da vida cotidiana, do trânsito, dos filhos, da casa, das angústias e alegrias que nos afligem ... e você com toda sua sensibilidade consegue exprimir isso muito bem. Me diverti muito lendo seus textos, em especial, os que tratam da sua relação com a Flora, pois como sabe, compartilho do mesmo melodrama de ter um filho pré adolescente e só quem tem, sabe como é. Acho bacana este canal de se expressar assim (num blog), acho coisa de gente corajosa. Aliás, escrever por si só já é um ato de grande coragem e mostrar pra todo mundo então...
terceiro, ...detesto essa mania que tenho que colocar as coisas em ordem, primeiro, segundo, terceiro, como se a quinta coisa, fosse menos importante que a segunda, mas, como já comecei assim, vá lá... em terceiro, seu pai e sua analista deveriam ficar seriamente preocupados (rsrs).
Até... Andréia

Sara Villas disse...

Ah minhas queridas amigas, muito bom ter vcs como leitoras.
Alguns comentários dos comentários...
K. C. - Vc é tão mais sensível e poética do que eu que conseguiu abstrair o sentido que quis dar a esse título, a princípio muito mais objetivo do que isso ai...
M. D. - Vai se aventurar a ler o meu ou a escrever um seu? Tomara que seja o segundo, pois já sou sua fã só pelo que vc pensa
A. S. - não são tão corajosa quanto parece... então que fique claro, eu só contei pra alguns poucos amigos disso aqui, só para aqueles com os quais me sinto suficientemente À vontade pra compartilhar angústias e deleites da vida (essa explicação,posteriormente será mais bem explicada, pois merece uma postagem exclusiva)... não tenho pretenções de expandir muito meus leitores não...e por isso manterei esse blog restrito, para que eu não me sinta podada.
a saber, nem meu pai nem minha analista sabem dele...rsrs