quarta-feira, 17 de setembro de 2008

CAPITALISMO SELVAGEM

Lembro bem do dia em que o “só se...” foi proibido na minha casa. Eu devia ter uns oito anos, e minha mãe anunciou oficialmente. “Está proibido o uso de ‘só se..’ nessa casa”. Quem é mãe entende, quem é filho também.
Mas como “a vida é um círculo”, cá estou eu tendo que negociar dia a dia com a Flora cada pedido, cada favor, cada gentileza. Com a Flora tudo funciona na base da troca. E pior, não é nem na base do escambo não, o pagamento é em dinheiro e de preferência a vista. Pra falar verdade, não gosto muito, acho interesseiro, muito pouco gentil. Fica parecendo que nada pode ser feito gratuitamente, sem que se receba algo em troca. Mas, se é assim, é por que também sou parte responsável dessas negociações, não me isento dessa responsabilidade não. Ou não aprendi a lição da minha mãe, ou estou reproduzindo algo que ficou reprimido...rs...
E, cá entre nós, tem umas trocas que valem muito a pena...rs

1) Outro dia ganhei uma hora de massagem (pagos a prestação, ta certo) graças a um favor bobo que fiz a ela, num momento de muita preguiça. Vcs não imaginam a mãozinha deliciosa que a Flora tem. Compatíveis as minhas dores nas costas.

2) Sempre fui viciada em estalar dedos. A princípio os meus. Depois dos namorados. E por fim da minha filha. Mas até que o dedo se acostume dói um pouco. E me lembro bem do dia em que inaugurei essas relação de troca na minha casa (putz, fui eu quem comecei com isso...). A Flora tinha uns cinco anos, e eu, ávida para estalar aqueles dedinhos virgens, disse, sem titubear. “te dou um real por dedo que vc deixar eu estalar”. Ela espremeu os olhinhos pensando na dor, e estendeu as mãozinhas...rsrs.

3) Sempre fui viciada também em roer unhas. Só as minhas mesmo. Mas isso fez com que eu tivesse uma enorme inabilidade em cortar as unhas da Flora. Já sangrou algumas vezes, na verdade acho que foi só uma, mas o suficiente para deixa-la traumatizada e ter pânico só de me ver com aquele cortadorzinho. Eu nem corto tão mal assim, mas é que nossa genética não ajuda nesse quesito, então, sempre depois de cortadas as unhas ficam esteticamente estranhas. Mas eu tava cansada de ter que insistir, gastar tempo, correr atrás a cada semana que a unha da menina crescia. Resolução: negociação.

Eu:
- Te dou dez reais para que das próximas dez vezes que eu peça para cortar sua unha vc diga “claro, mamãe querida”
Ela olhou fulminante, fez uma voz de sei lá o que e disse, estendendo as mãos, com ar de “ok, vc venceu”:
- “claro mamãe querida...”.

Mas agora ela quer a unha grande. Outro dia foi até no salão. Mas ainda não dá, por que fica grande (de moça) mas suja (de criança)... E eu lembrei disso tudo, por que ontem a noite, quando cheguei na casa da minha mãe, a Flora estava toda feliz rodopiando na grande cadeira de escritório da minha mãe. Olhou pra mim e disse:
- Eu fiz uma troca com a vovó e por isso ganhei o direito de ficar um dia inteiro usando a cadeira dela.
Eu olhei com cara de não to entendendo. Ela estendeu as mãos e, as unhas pintadas e sujas, estavam agora curtas e limpas. Minha filha ta deseducando minha mãe.

Um adendo: o dinheiro normalmente é para comprar doces. Atualmente, anda guardando, para comprar suvenir para as amigas na Índia.
Serão trocas legítimas? Não sei.
Jeito estranho esse de deseducar né...

4 comentários:

Pao-Lo disse...

À primeira vista essas trocas não me parecem legítimas. Soam como "receber um prêmio para cumprir uma obrigação". Futuramente a Flora não vai receber um prêmio por parar no sinal vermelho e sim uma multa se não parar. Por outro lado, pensar numa educação baseada na punição... dá uma sensação ruim. MAS... eu nunca fui pai. Agora... pensando nas unhas dela... eu apoio que ela deixe-as grandes, sujas e pintadas. E um belo dia ela vai perceber que aquela sujeira ali tá em desacordo com a beleza de uma unha pintada... Acho que é só questão de tempo pra ela tomar gosto pelo conjunto: limpar, lixar, pintar...

Eu nunca parei de roer unhas (nunca das duas mãos ao mesmo tempo). Prêmios assim nunca me convenceram. Nunca me ofereceram tb. Tentaram me impor um regime de emagrecimento qdo criança e não rolou. Emagreci qdo soube que teria que me alistar no exército no ano seguinte e imaginei eu pelado sendo alvo de zoação geral dos outros. Trauma. Bem... vou pensar mais sobre o tema, mas esses casos citados não seriam possíveis de se resolver conversando? Naquela hora certa, que a janela tá mais aberta?

Sara Villas disse...

acho que vc emagreceu só pra "pegar" as mulheres...rs...
o exemplo do sinal foi ótimo, vou utiliza-lo da próxima vez, a Flora gosta de bons argumentos, não que eles funcionem sempre, mas...

Pao-Lo disse...

Hehehe... Sara captou parcialmente alguma coisa nas entrelinhas. Mas imagine vc com traumas e mais traumas pela zoação dos colegas e (na época era assim, hj em dia acho que nem é mais) tendo que ficar pelado com mais uns 50 homens, de braços e pernas abertos, de frente e de costa; aí passava uns uniformizados dando uma geral e debochando. E além disso eu achava que tinha pinto pequeno (depois descobri que era maior que a maioria, ufa...).

Mas quanto a pegar as mulheres tá mais na frase "MAS... eu nunca fui pai." (Portanto, meninas, se querem um sujeito responsável, bem-humorado e que adora crianças... e tb não é feio, né Sara?... heheh) Só tem uns defeitinhos tipo ir à praia e nunca entrar na água, nunca tirar a camisa, ser preguiçoso... os mais graves eu já domei. A custa de sofrimento, mas estão domados.

Ahhhhnnn tô com saudade da Flora!!! e da Sara tb! :o) Quero ver a Flora cantando. Tô sentindo firmeza na idéia.

Pao-Lo disse...

Nota de esclarecimento:

Quando eu disse "E além disso eu achava que tinha pinto pequeno (depois descobri que era maior que a maioria, ufa...)." Só quis ilustrar a mentalidade do pré-adolescente masculino que, um pouco ingenuamente, tenta encontrar metáforas corpóreas para questões muito complexas. Como, com frequência, ouvimos as meninas também preocupadas porque acham que as pernas ou são finas demais ou tortas, ou não têm seios suficientemente grandes etc Nessa época, agente (ingenuidade mesmo) acha que sabe o que atrai o outro; mas nem o outro sabe! Eu acho que "saber", nesses casos, não é lá muito compatível com querer.